{"id":352405,"date":"2026-09-13T01:28:21","date_gmt":"2026-09-13T04:28:21","guid":{"rendered":"https:\/\/tribunabrasilia.com.br\/2\/morango-no-df-atravessa-geracoes-com-tradicao-e-novas-tecnologias\/"},"modified":"2026-09-13T01:28:21","modified_gmt":"2026-09-13T04:28:21","slug":"morango-no-df-atravessa-geracoes-com-tradicao-e-novas-tecnologias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tribunabrasilia.com.br\/2\/morango-no-df-atravessa-geracoes-com-tradicao-e-novas-tecnologias\/","title":{"rendered":"Morango no DF atravessa gera\u00e7\u00f5es com tradi\u00e7\u00e3o e novas tecnologias"},"content":{"rendered":"<p><em>Hist\u00f3ria de agricultor que come\u00e7ou com tr\u00eas mil mudas em 1976 revela mudan\u00e7as no cultivo e na comercializa\u00e7\u00e3o da fruta<\/em><\/p>\n<p>Em 1976, Jo\u00e3o Fukushi trouxe para Brazl\u00e2ndia tr\u00eas mil mudas de morango da variedade Campinas. O plantio ocorreu fora da \u00e9poca habitual, mas a colheita surpreendeu. Havia terra f\u00e9rtil, \u00e1gua e mercado para o fruto. O agricultor, que tamb\u00e9m tinha experi\u00eancia com flores, encontrou nos morangos um motivo para permanecer e construir a vida no Distrito Federal.<\/p>\n<p>\u201cAqui, com terra nova, tudo que se plantava, colhia. Foi uma felicidade imensa e n\u00e3o tive dificuldades. Tinha terra boa e vendia tudo que plantava\u201d, conta Fukushi.<\/p>\n<p>Aos 75 anos, ele ainda cultiva morango na propriedade. Hoje, s\u00e3o 25 mil p\u00e9s e variedades como Albion, Camino Real e Sabrina. A irriga\u00e7\u00e3o mudou, os canteiros ganharam prote\u00e7\u00e3o e os consumidores passaram a entrar na lavoura para colher os pr\u00f3prios morangos.<\/p>\n<p>Sua trajet\u00f3ria acompanha a transforma\u00e7\u00e3o de uma atividade que, em 2025, produziu cerca de 5,3 mil toneladas de morango, considerando os cultivos convencional e org\u00e2nico, em uma \u00e1rea de 169 hectares. A atividade movimentou mais de R$ 105,2 milh\u00f5es em Valor Bruto da Produ\u00e7\u00e3o (VBP).<\/p>\n<p>Ao longo de cinco d\u00e9cadas, o conhecimento dos pioneiros se somou \u00e0 pesquisa e \u00e0 assist\u00eancia t\u00e9cnica para mudar tanto a produ\u00e7\u00e3o quanto \u00e0s formas de comercializar.<\/p>\n<p><strong>Conhecimento que veio com a fam\u00edlia<\/strong><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria do morango em Brazl\u00e2ndia est\u00e1 ligada \u00e0s fam\u00edlias de origem japonesa, como a dos Fukushi, que chegaram \u00e0 regi\u00e3o nos anos 1970, muitas delas vindas de Atibaia (SP). Parte desses agricultores foi assentada no Projeto Integrado de Coloniza\u00e7\u00e3o Alexandre Gusm\u00e3o. Eles trouxeram experi\u00eancia com frutas e hortali\u00e7as para abastecer uma Bras\u00edlia que ainda dependia de alimentos de outros estados.<\/p>\n<p>Na fam\u00edlia Fukushi, o aprendizado tinha uma refer\u00eancia pr\u00f3xima: o pai, t\u00e9cnico agr\u00edcola, que j\u00e1 cultivava morangos antes mesmo de chegar ao Brasil fugindo da guerra. Era no trabalho di\u00e1rio que ensinava a produzir e selecionar os frutos. O agricultor lembra tamb\u00e9m da troca de informa\u00e7\u00f5es entre imigrantes, entre os quais havia profissionais com forma\u00e7\u00e3o agron\u00f4mica. \u201cMeu pai era um homem de muitos valores e herdei dele o compromisso de oferecer alimentos confi\u00e1veis e a disposi\u00e7\u00e3o para recome\u00e7ar diante das dificuldades. N\u00e3o reclamo de nada. Tudo o que me aparece de dificuldade eu aprendo e aceito\u201d, conta.<\/p>\n<p>A partir do in\u00edcio dos anos 1990, a atua\u00e7\u00e3o das equipes da Emater-DF em Brazl\u00e2ndia e no Incra 8 ajudou a ampliar o acesso ao conhecimento sobre a cultura. Estudos, testes de variedades e orienta\u00e7\u00f5es de manejo contribu\u00edram para a entrada de novos agricultores e a expans\u00e3o do cultivo para outras regi\u00f5es do DF.<\/p>\n<p>Fukushi conta que plantou a variedade Campinas por mais de 30 anos. Hoje, escolhe diferentes materiais para oferecer ao consumidor op\u00e7\u00f5es de sabor e qualidade, al\u00e9m de melhorar a produtividade. Essa mudan\u00e7a est\u00e1 entre os avan\u00e7os destacados pelo extensionista Roberto Carneiro, integrante do grupo t\u00e9cnico do morango da Emater-DF e que teve hist\u00f3ria de atua\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cUma coisa que evoluiu bastante nos \u00faltimos 30 anos foi a diversifica\u00e7\u00e3o das variedades de morango\u201d, afirma Carneiro. Segundo ele, os agricultores passaram de uma ou duas op\u00e7\u00f5es para uma oferta mais ampla, com diferentes caracter\u00edsticas de resist\u00eancia \u00e0s pragas e doen\u00e7as, produtividade, tamanho, sabor e conserva\u00e7\u00e3o, que permitem atender a diferentes demandas do mercado.<\/p>\n<p>A transforma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m aparece na irriga\u00e7\u00e3o. Na propriedade de Fukushi, a aspers\u00e3o deu lugar ao gotejamento, que leva a \u00e1gua diretamente \u00e0 regi\u00e3o das ra\u00edzes. O sistema permite controlar melhor a aplica\u00e7\u00e3o, reduzir custo com energia e economia de \u00e1gua e, quando associado \u00e0 fertirriga\u00e7\u00e3o, fornece nutrientes pela \u00e1gua. A mudan\u00e7a ganhou import\u00e2ncia para o agricultor, que relata redu\u00e7\u00e3o na disponibilidade de \u00e1gua ao longo dos anos.<\/p>\n<p>Nos canteiros, ele utiliza a cobertura pl\u00e1stica conhecida como mulching. A t\u00e9cnica ajuda a conservar a umidade, controlar plantas daninhas e evitar o contato dos frutos com o solo. Microt\u00faneis e estufas acrescentaram prote\u00e7\u00e3o contra a chuva e, combinados com outras pr\u00e1ticas, permitiram a alguns produtores ampliar o per\u00edodo de colheita para al\u00e9m dos meses secos.<\/p>\n<p>Carneiro destaca ainda a contribui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o org\u00e2nica de morango, que ganhou impulso no DF a partir de 2003 com o apoio da Emater. Segundo ele, experi\u00eancias com composto bokashi, biofertilizantes e produtos biol\u00f3gicos para o solo e as plantas geraram conhecimentos, que tamb\u00e9m passaram a ser aproveitados no cultivo convencional.<\/p>\n<p><strong>O tempo do solo e os desafios que permanecem<\/strong><\/p>\n<p>Mesmo depois de d\u00e9cadas na atividade, Fukushi continua aprendendo com a lavoura. Nesta safra, conta ter perdido mudas ao antecipar o uso de um adubo org\u00e2nico que ainda n\u00e3o estava pronto.<\/p>\n<p>\u201cNa natureza, o preparo do solo acontece ao longo do tempo: a folha cai, se decomp\u00f5e e vai disponibilizando os nutrientes. Na agricultura, muitas vezes queremos fazer tudo muito r\u00e1pido, com pressa de produzir e ganhar dinheiro. S\u00f3 que a planta \u00e9 um ser vivo. A gente precisa observar, entender o que ela precisa e respeitar o tempo dela. N\u00e3o \u00e9 simplesmente do jeito que a gente quer\u201d, fala Fukushi.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia do agricultor condiz com os diagn\u00f3sticos relatados por Carneiro. O extensionista aponta que excessos na aduba\u00e7\u00e3o, tanto no plantio quanto na cobertura, continuam entre os desafios da assist\u00eancia t\u00e9cnica. A aplica\u00e7\u00e3o desequilibrada eleva os custos, traz doen\u00e7as e pode comprometer o desenvolvimento das plantas. Assim, o acesso a novos produtos precisa vir acompanhado de an\u00e1lise do solo, orienta\u00e7\u00e3o e observa\u00e7\u00e3o da lavoura. Al\u00e9m disso, os erros frequentes por excessos na irriga\u00e7\u00e3o promovem perdas de fertilizantes minerais, insumos cada vez mais dispendiosos, al\u00e9m de elevarem os riscos fitossanit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Outro ponto decisivo para uma boa safra \u00e9 a qualidade das mudas. Carneiro lembra que, nos anos 1990, transporte inadequado e problemas nas ra\u00edzes prejudicavam o estabelecimento das plantas. A\u00e7\u00f5es de fiscaliza\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o ajudaram a melhorar o material recebido ao longo do tempo melhorando as quest\u00f5es de sanidade e de transporte, que ainda podem melhorar. \u201cMas o produtor precisa ficar atento se o viveiro \u00e9 certificado, se fornece material de qualidade. Tamb\u00e9m deve ter um bom planejamento para a chegada das mudas e preparo do solo para o plantio\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Essas quest\u00f5es levaram equipes t\u00e9cnicas a percorrer lavouras em 2025 para identificar os problemas enfrentados pelos produtores. Os resultados dos diagn\u00f3sticos foram discutidos com os agricultores, gerando o que denominou Pacto pelo Morango, com aten\u00e7\u00e3o \u00e0 qualidade das mudas, \u00e0 aduba\u00e7\u00e3o e ao manejo de pragas e doen\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Quando o consumidor entra na lavoura<\/strong><\/p>\n<p>Para Fukushi, adaptar-se tamb\u00e9m significou repensar a venda. Em um per\u00edodo de dificuldades financeiras e de falta de m\u00e3o de obra para a colheita, ele e as filhas adotaram o Colha &#038; Pague, com orienta\u00e7\u00e3o inicial da Emater-DF. A experi\u00eancia recuperou uma solu\u00e7\u00e3o que o pai j\u00e1 havia utilizado d\u00e9cadas antes: receber o consumidor para colher a pr\u00f3pria fruta.<\/p>\n<p>Com o visitante entre os canteiros, o sabor e a qualidade ganharam ainda mais import\u00e2ncia nas escolhas do agricultor. Hoje, ele tamb\u00e9m considera processar parte da produ\u00e7\u00e3o para agregar valor ao que cultiva. Depois de cinco d\u00e9cadas, mant\u00e9m a disposi\u00e7\u00e3o para ajustar o trabalho ao que aprende no campo. \u201cProcuro a qualidade, muito mais do que a quantidade\u201d, afirma.<\/p>\n<p><strong>Diversidade nos canteiros e \u00e0 mesa<\/strong><\/p>\n<p>Para atender a diferentes p\u00fablicos e necessidades, os produtores do DF atualmente contam com diversas variedades para cultivo. Camarosa, San Andreas, Portola, Festival, Camino Real, Sabrina e Alpina 10 est\u00e3o entre as principais variedades cultivadas na regi\u00e3o. A escolha considera tanto as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o quanto o mercado a que os frutos se destinam.<\/p>\n<p>A San Andreas, por exemplo, apresenta boa firmeza e resist\u00eancia ao transporte, enquanto a Sabrina se destaca pelos frutos doces e suculentos, ambas indicadas para consumo in natura. J\u00e1 Camarosa e Camino Real atendem tamb\u00e9m \u00e0 industrializa\u00e7\u00e3o, ampliando as possibilidades de aproveitamento da colheita.<\/p>\n<p>A pesquisa brasileira tamb\u00e9m acrescentou uma nova op\u00e7\u00e3o: a BRS DC25, conhecida como F\u00eanix. Desenvolvida pela Embrapa Clima Temperado e lan\u00e7ada em 2023, a cultivar foi aprovada para plantio no Distrito Federal em 2025. Entre seus atributos est\u00e3o a produ\u00e7\u00e3o precoce, o equil\u00edbrio entre a\u00e7\u00facar e acidez e a boa conserva\u00e7\u00e3o dos frutos ap\u00f3s a colheita. Destinada principalmente ao consumo in natura, tamb\u00e9m pode ser utilizada pela ind\u00fastria de frutas congeladas. Seu desenvolvimento integra o esfor\u00e7o para ampliar a oferta de cultivares adaptadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es brasileiras e reduzir a depend\u00eancia de materiais estrangeiros.<\/p>\n<p>A trajet\u00f3ria de Fukushi mostra que permanecer no campo exige mudar e se adaptar. Novas variedades surgem, a tecnologia de manejo e produ\u00e7\u00e3o mudam e aparecem novas formas de comercializar e de agregar valor ao morango. Sua lavoura aproxima duas pontas da hist\u00f3ria do morango no DF: o conhecimento das fam\u00edlias pioneiras e as possibilidades que a pesquisa, a assist\u00eancia t\u00e9cnica, as pol\u00edticas p\u00fablicas, a experi\u00eancia e a vontade dos produtores abrem para as pr\u00f3ximas safras.<\/p>\n<p>O post <a href=\"https:\/\/www.jornaldoplanalto.com.br\/morango-no-df-atravessa-geracoes-com-tradicao-e-novas-tecnologias\/\">Morango no DF atravessa gera\u00e7\u00f5es com tradi\u00e7\u00e3o e novas tecnologias<\/a> apareceu primeiro em <a href=\"https:\/\/www.jornaldoplanalto.com.br\/\">Jornal do Planalto<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria de agricultor que come\u00e7ou com tr\u00eas mil mudas em 1976 revela mudan\u00e7as no cultivo e na comercializa\u00e7\u00e3o da fruta Em 1976, Jo\u00e3o Fukushi trouxe para Brazl\u00e2ndia tr\u00eas mil mudas de morango da variedade Campinas. 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